WORK IN PROGRESS

6 de Maio, Folha de S. Paulo

UNS TEMPOS ATRÁS, o mundo ficou em choque com a história de uma criança de 10 anos que, certo dia, a caminho da escola, foi seqüestrada por um técnico de computadores. A criança ficou na cave durante oito anos de recorrentes abusos. Agora, cereja no topo do bolo: Josef Fritzl, um eletricista que Lombroso teria enviado diretamente para a cadeia (que rosto, meu Deus, que rosto!), encerrou a própria filha na cave durante 24 anos e teve sete filhos dela. Um deles morreu e foi queimado pelo próprio pai/avô. Três viveram com ele à superfície. Três continuaram nas catacumbas e, sabe-se agora, tinham de assistir às violações da própria mãe. Em todas essas histórias, o que choca não é apenas a brutalidade dos crimes. É a dimensão espacial deles: cave, cave, cave. Se as coisas continuam, não excluo que o mercado imobiliário passe a adotar a última moda: "Vende-se moradia com quatro quartos, dois banheiros, uma sala e uma cave austríaca". As caves austríacas começam a ganhar fama internacional - aqui.

 

3 de Maio, Expresso

SABER que a nossa juventude não coloca a política no topo das suas prioridades implica saber quais são as prioridades. E, segundo o mesmo estudo, os jovens preferem a família, os amigos, os tempos livres e até, Deus seja louvado, a religião e o trabalho voluntário. Será isto um retrato de miséria? Não creio. Talvez seja um retrato bem mais saudável do que eu próprio suspeitava. Há trinta e quatro anos, com a democracia trémula nas ruas, a política era inevitavelmente o centro de qualquer existência. Mas a estabilidade do regime, ao retirar a política do palco, permitiu à juventude caseira perseguir outros interesses. Os seus próprios interesses. Não vejo grande drama. Aqueles que recordam, com saudade, a paixão ideológica de tempos idos, esquecem-se que esses tempos eram tudo menos saudosos - aqui.

 

3 de Maio, Folha de S. Paulo

O LIVRO DE FERNANDO PESSOA, Lisboa - O que o Turista Deve Ver, um inédito escrito em 1925 (em inglês), não pode ser entendido sem a História. Não pode ser entendido sem o forte sentido de "descategorização civilizacional" que não poderia deixar de entristecer um "patriota cosmopolita" como Pessoa. Será esse sentimento que o levará a exaltar Lisboa para consumo estrangeiro. A Lisboa que o leitor tem nas páginas do livro é sempre excesso: os funcionários são "competentes", "poliglotas", "afáveis"; todos os edifícios são "belos", ou "obras-primas", ou exemplares "sem paralelo na Europa". Confrontado com tais descrições, a primeira atitude é questionar se uma cidade assim tão perfeita existiu algum dia na Terra. Uma coisa é certa: para quem vive hoje em Lisboa, a cidade apresentada no livro ganha contornos fantasmagóricos - aqui.

 

30 de Abril, Folha de S. Paulo

JÁ TINHA pensado no assunto: o amor é diferente quando é falado por línguas diferentes. O mesmo ato, a mesma cama, os mesmos corpos, mas a narrativa é distinta, porque distinta é a língua, e os tabus, e as expressões de excitação, e as palavras sussurradas ou gritadas que habitam a boca dos amantes. "Vou gozar", "estou-me a vir": fazer amor em português (do Brasil) ou em português (de Portugal) não é apenas uma questão de sotaque, mas de imaginário, temperamento, tradição. E, no entanto, não existe um estudo sobre o fenômeno. Quando o assunto é sexo, abundam imagens, descrições, banalidades. Clichês. Mas falta uma poética do eros, capaz de revelar o que uma língua transporta para a intimidade. Como será um orgasmo em russo ou em mandarim? Como se excitam, verbalmente falando, os amantes da Islândia ou da Patagônia? E que palavrões fazem sucesso na Grécia ou no Irã? - aqui.

 

28 de Abril, Folha On Line

DUAS SEMANAS ATRÁS, escrevi na Folha um pequeno comentário sobre Tropa de Elite, o filme de José Padilha que conquistou Berlim e deixou o Brasil em estado de choque. Dizia então que Tropa de Elite, pela forma séria como apresentava a criminalidade urbana no Rio, era o filme mais adulto do moderno cinema brasileiro. Foi o que bastou para que o meu email explodisse com a fúria dos leitores. "Racista", "fascista", "nazista", "ditador", "criminoso", "sanguinário". Esses foram os elogios. Os insultos são irreproduzíveis porque a Folha é um jornal de família. A pergunta é óbvia: por que essa hostilidade, Deus meu? A hostilidade, creio, nasce pela forma caricatural como o crime é apresentado e analisado no Brasil. Quando o assunto é "droga" ou "favelas", existem de imediato dois campos que, no seu simplismo primário, se enfrentam com irracionalidade clássica - aqui.

 

25 de Abril, Expresso

DE VEZ EM QUANDO, existem milagres. Um deles aconteceu entre nós, com tradução (por António Pescada) e publicação (pela Relógio d'Água) de Pais e Filhos, o romance de Ivan Turgenev - e, sem traço de exagero, a obra russa que mais vezes relembro nas andanças da vida. Porquê o entusiasmo? Confesso que não li Turgenev em estado virgem. Foi Isaiah Berlin quem, em ensaio clássico, estabeleceu a importância central de Turgenev no cânone: um membro da "intelligentsia" russa que, ao contrário dos seus parceiros (como o amigo Belinsky), se recusava a pregar. Quando lemos Dostoievski, por exemplo, é difícil não acertar no vilão. Mas com a pena ambígua e aveludada de Turgenev, as certezas diluem-se e a empatia instala-se onde menos esperamos. Em Pais e Filhos, ela instala-se quando Bazarov entra em cena: o jovem radical que, em confronto com a civilização dos seus pais e avós, promete e deseja "limpar o quadro" - aqui.

 

22 de Abril, Folha de S. Paulo

COMO SOBREVIVEM as ditaduras? Sim, uma máquina repressiva é importante. E alguma propaganda para consumo doméstico costuma ajudar. Mas nenhuma ditadura sobrevive sem uma certa complacência internacional, normalmente promovida por "intelectuais" ou "jornalistas" que negam a realidade. Foi Lênin quem, alegadamente, teria percebido a importância dos "idiotas úteis" para a sobrevivência da União Soviética. Para esse gênio da estratégia revolucionária, os "idiotas úteis" eram todos aqueles que, depois de conhecerem in loco a violência e a desumanidade do comunismo, regressavam para os respetivos países e continuavam a defender o indefensável. Por estupidez, ignorância ou má-fé. Os idiotas úteis continuam entre nós - aqui.

 

19 de Abril, Expresso

OS ARMAZÉNS HARVEY NICHOLS, em Londres, começaram a comercializar o perfume do momento. Criado por Antoine Lie, um colaborador próximo de Armani, a fragrância dá pelo nome de "Sécrétions Magnifiques" e propõe-se emular, para uma clientela cada vez mais exigente, os odores do sangue, do suor, da saliva e do sémen. Desconheço se a urina e as fezes são a próxima aposta do catálogo. É possível. É provável. Confrontado com a invenção, o director dos armazéns garantiu que o produto preenche um nicho de mercado. As vendas têm sido expressivas. Eu não duvido. E Katherine Ashenburg, autora de Clean: An Unsanitised History of Washing, também não. Nas palavras da sra. Ashenburg, nunca como agora se viveu numa cultura tão patologicamente obcecada com a higiene. É esta obsessão que explica algumas doenças (a começar pelas alérgicas) e, paradoxalmente, algumas tendências (como os perfumes corporais) - aqui.

 

____________________

 

5 de Fevereiro de 2008, Folha On Line

- Você não acha que a corrupção, para os brasileiros, não é tão grave como seria para os europeus?

Corrupção é fruto de falta de democracia. Quanto mais avançada é uma democracia, menor o risco de corrupção. Uma imprensa independente ajuda a vigiar a classe política. Um judiciário independente também. Até a arte tem um papel no combate à corrupção. Ela oferece à sociedade ferramentas como iconoclastia, humor, visão crítica, senso estético, senso de proporção, agitação intelectual, inquietude existencial tudo isso aumenta nossa desconfiança e nossa insatisfação em relação às pessoas em geral e aos políticos em particular.

- Então o problema central talvez não seja Lula, mas o Brasil.

Exatamente. Lula - o meu Lula - é metafórico. Talvez até metonímico. Ele representa o que o país tem de pior.

Uma conversa com Diogo Mainardi, aqui.

 

21 de Janeiro de 2008, Folha On Line

Por que você acha que, no Brasil (em Portugal é a mesma coisa), todos os escritores em início de carreira querem logo ser um Mann ou um Dostoiévski, quando nem sequer dominam a linguagem básica da narrativa? Você acha que a hostilidade à literatura "middlebrow" é um dos fatores?

Acho que é pretensão pura, mesmo. Vontade de ser celebrado em vida e post mortem. Vontade de estar na história. O problema desses escritores não é tentarem ser Mann ou Dostoievski, é pensarem como Napoleão. Essa vaidade besta é que os impede de ter autocrítica e de ir pouco a pouco escrevendo uma obra gradual e verdadeira, que dá trabalho, muito trabalho... Monteiro Lobato tem uma imagem que adoro: diz que o estilo é como um subproduto das buscas do autor, como o cheiro que surge na fruta madura. Diz mais, diz que isso só acontece perto dos 40 anos na prosa. Pode conferir: todo grande prosador atingiu o auge depois dos 30-35. Por sinal, foi com a minha idade, 38 anos (que completarei em 28 de março), que Proust se enfiou naquele quarto de cortiça para escrever a 'Recherche'. Meu azar é não ser Proust. Minha sorte é saber que não sou. 

Uma conversa com Daniel Piza, aqui.

 

____________________

 

FOLHA - Quando você começou a escrever crônicas para o público brasileiro, como as imaginou?

JOÃO PEREIRA COUTINHO - Pensei em leitores chorando de gratidão, matrimônios desfeitos por ciúmes bobos, cartas de amor desesperadas. Não aconteceu. Mas eu continuo a tentar, começando do zero todas as semanas. O objetivo é o mesmo: divertir, informar, enfurecer e conquistar o leitor. No fundo, eu só quero ser amado. [risos]

Entrevista para a Folha de S. Paulo sobre o livro Avenida Paulista, aqui. Para comprar o livro, aqui. 

 

____________________

 

- Uma conversa radiofónica sobre Portugal e o Brasil, com Francisco José Viegas e Otavio Frias Filho, aqui [wma], aqui [mp3] ou aqui [audio real].

- Uma conversa com o jornalista brasileiro Bruno Garschagen, aqui.

- Uma conversa televisiva sobre a felicidade, com Paula Moura Pinheiro e Ana Martins, aqui.

 

____________________

 

Apresentações biográficas, aqui.

E-mail pessoal (mas transmissível), aqui: jpcoutinho [arroba] jpcoutinho.com

'Trabalhos Passados', na próxima página.

1 2