31 de Janeiro, Correio da Manhã
Uma amiga dizia-me há tempos que a burqa tem as suas vantagens. "Há dias em que acordamos maldispostas e não temos vontade para arranjar o cabelo ou usar maquilhagem." Enfiar um trapo medieval, da cabeça aos pés, seria um descanso para muitas. E, convém lembrar, um direito: se uma mulher se decide enfaixar livremente, por que motivo devemos proibir o gesto?
Resposta: não devemos. E a lei que a França prepara sobre a matéria não pretende essa abolição total. Se as mulheres usam burqa em casa, nas ruas, nos jardins – problema delas. Mas se usam burqa nos hospitais, nos serviços públicos, nos transportes – problema de todos.
Em sociedade, o nosso respeitável solipsismo termina quando entramos em interacção com terceiros. O que implica uma capacidade de reconhecimento mútuo: de olhar para o rosto de um estranho, divisando-lhe expressões ou intenções. Esse reconhecimento é um imperativo de comunicação e confiança. Mas é sobretudo uma condição de civilidade: a civilidade que faz das sociedades ocidentais aglomerações de pessoas, e não de fantasmas.
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24, 23 e 22 de Janeiro, Correio da Manhã
Gostei de ver Bagão Félix na SIC. Que disse o antigo ministro? Simples: que dependem do Estado sete milhões de pessoas. São funcionários públicos, reformados, desempregados e todo o tipo de dependentes. Talvez exista aqui algum exagero nos números. Mas, se não são sete, são seis. A maioria da população.
Se juntarmos a tudo isto os inquéritos da praxe, o retrato fica completo: os portugueses querem mais Estado, não menos. O ideal, presumo, era ter dez milhões a contribuir e a receber, em círculo perfeito.
Enquanto esse dia não chega, temos Pedro Passos Coelho e o seu livro Mudar, um manual de boas intenções onde o eterno candidato à liderança do PSD propõe menos Estado e mais iniciativa privada. A receita, confesso, merece um sorriso de simpatia. Mas merece também um sorriso de cepticismo. E uma pergunta aos nossos ‘liberais’: como transformar um país fortemente patrimonialista, que vê no Estado o mesmo tipo de divindade que certas tribos primitivas, num recanto de mais liberdade e responsabilidade pessoal?
Um pedido: milagres não valem.
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Todas as semanas, Portugal anda nas bocas do mundo. ‘É a economia, estúpido!’, como dizia o outro. E como disse o FMI recentemente: uma economia com crescimento pífio, desemprego galopante, dívida monstruosa. Este cardápio, que já enjoa, não enjoa os partidos do regime. Basta vê-los, em animada valsa, a negociar o Orçamento. A ideia é chegar a um acordo em que todos, sem excepção, possam cantar vitória.
A vitória soará: para o PS, com a aprovação do dito cujo (mas não de um plano sério para combater o endividamento e o défice); para o PSD, que não se irá comprometer com o documento (comprometendo, porém, as suas exigências de combate ao endividamento e ao défice); e para o CDS, que se está nas tintas para essas matérias arcanas desde que existam meia dúzia de conquistas simbólicas (no PEC, no IVA, no IRS) para alegria dos seus nichos.
No meio da dança, interessa perguntar se a vitória dos partidos é uma vitória para o país. Duvidoso. Um país faz-se com líderes dispostos a mudar de vida, não com merceeiros interessados em tratar da sua.
Francisco Assis, em reunião do grupo parlamentar, pediu moderação ao seu PS. Pobre Assis. Não há moderação possível quando o assunto é Manuel Alegre. Não por culpa exclusiva do bardo, entenda-se. Mas porque a candidatura de Alegre revelou uma divisão profunda que cinco anos de governo conseguiram esconder sem eliminar: a divisão entre o PS de Sócrates e o PS profundo, que sempre viu o engenheiro como um corpo estranho à tribo.
O PS de Sócrates, com o próprio à cabeça e Vitorino logo atrás, hesita no apoio e chuta a coisa para Março, depois do Orçamento. Mas o PS profundo entende duas coisas. Primeiro, que prolongar a decisão enfraquece a candidatura: Alegre converte-se, no limite, em candidato tolerado, e não desejado, o que arruina a qualidade da empreitada. E, depois, que a hesitação no apoio só prova e comprova o reputado nojo com que o PS socrático sempre tratou os históricos.
A candidatura de Alegre não inaugurou apenas a corrida presidencial de 2011. Ela inaugurou a luta pelo futuro do PS, que a perda da maioria tornou inadiável. Alegre é a primeira batalha.
18 de Janeiro, Folha On Line
Albert Camus morreu há cinquenta anos. O que diria o escritor existencialista do estado da França actual? Mistério. Nicolas Sarkozy, por exemplo, pretende introduzir uma lei que criminaliza a "violência psicológica" entre casais, uma categoria que significa tudo e o seu contrário: da ameaça homicida às velhas discussões entre amantes, que normalmente antecedem a reconciliação apaixonada.
O problema da lei, aliás, começa precisamente aqui: na impossibilidade de colocar um funcionário da República dentro da casa, e do quarto, e até dos lençóis de cada francês, como fazer a rigorosa triagem dos gritos? Como distinguir, no fundo, a dor e o prazer?
Um aparelho de medição decibélica, obrigatório em todas as casas e com ligação imediata à delegacia do bairro, está longe de resolver o dilema. E não seria de espantar que, movidos por acção vigilante, os policiais arrombassem portas e janelas simplesmente porque escutaram o tipo de grito errado.
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17, 16 e 15 de Janeiro, Correio da Manhã
Manuel Alegre aprendeu com os erros de 2005 e não prolongou o dilema. Disse ‘presente’ e, agora, o dilema passou para Sócrates: ou apoia, ou não apoia. Imagino que Alegre seja um espinho doloroso para o primeiro-ministro. Por um lado, aqui está um crítico do governo, com ares de independência, que fez mais oposição ao PS do que a Oposição propriamente dita; por outro, ao unir as esquerdas e mesmo certas direitas que se revêem no seu discurso patrioteiro e marialva, Alegre é o melhor candidato para disputar a presidência a Cavaco. Sócrates, em relação a Alegre, tem de escolher: ou a vingança do ressentimento, ou a hipótese séria de ganhar Belém.
Desconfio que Sócrates já decidiu: ganhar Belém significa remover Cavaco, o objecto da sua hostilidade recorrente; e, removendo Cavaco, Sócrates tem a oportunidade de inaugurar um novo ciclo e, quem sabe, uma nova maioria. Alegre pode não ser o candidato ideal. Para Sócrates, é o candidato tolerável.
A direita que não subestime o bardo: o ‘mítico’ milhão de votos pode mesmo multiplicar-se por três.
Onde é que eu já ouvi isto? Depois da promessa sagrada de não subir os impostos, o ministro das Finanças já disse o dito por não dito. Tudo porque a oposição (ou, se preferirem, a ‘coligação negativa’) actua com maldade para ‘aumentar a despesa’. Teixeira dos Santos falava do adiamento do Código Contributivo (que o Presidente da República promulgou) ou do Pagamento Especial por Conta, dois exemplos que, para o ministro, simbolizam essa vontade de ‘aumentar a despesa’.
Curiosamente, não parece ter ocorrido ao ministro uma expressão mais apropriada: ‘cortar a receita’. O que se compreende: o Código e o PEC já eram, de forma encapotada, uma forma de cobrar os impostos que o governo jurava não cobrar. Ao negar essa ‘receita’, a ‘coligação negativa’ não ‘aumenta a despesa’; limita-se, isso sim, a obrigar o governo a fazer às claras o que antes se preparava para executar às escuras: espremer o contribuinte. Verdade que o contribuinte continuará a ser espremido. Mas, pelo menos, terá a consolação de saber realmente quem lhe vai ao bolso.
Na passada semana, o Parlamento aprovou, entre lágrimas e suspiros, o casamento gay. Portugal entrava no século XXI, ou talvez no XXII, com um ‘casamento de segunda’, feito à medida da cobardia política do PS, ou seja, sem adopção.
Uma semana depois, já há choro e ranger de dentes. Tudo porque, segundo a Constituição (um pormenor), cabe ao Presidente a apreciação do diploma, a sua promulgação – ou não. Este terrível ‘suspense’ arrasa com o sossego de socialistas, gays e simpatizantes. Uns, entre a histeria e a ameaça, exigem rapidez na decisão, provavelmente para acudir ao sofrimento em que vive a comunidade gay celibatária. Outros, mais moderados, avisam as tropas que o Parlamento vai martelar a adopção no diploma caso o Constitucional não goste da sua ausência.
Resta saber o que fará o engº Sócrates perante este último cenário: respeitará o ‘compromisso’ assumido com os portugueses, adiando o casamento para nova legislatura? Ou estará disposto a rasgar o ‘compromisso’ e a permitir esta gigantesca fraude legislativa e política? Aceitam-se apostas.
10, 9 e 8 de Janeiro, Correio da Manhã
Alguém dizia que um cínico é aquele que sente um cheiro a flores e começa logo à procura do caixão. Não pretendo ser cínico. Mas o ‘acordo’ orçamental entre o PS e o PSD tem um cheiro a flores que implica saber onde está o cadáver. Aparentemente, em lado algum: o entendimento favorece o PS, que dá mostras de ‘diálogo’ e favorece o PSD, que ressurge como o partido da ‘responsabilidade’. Infelizmente, o cheiro a flores pode converter-se em velório. Um ‘acordo’ implica interesses comuns. Mas que interesses existem entre um governo que não abdica do seu modelo de desenvolvimento (mais obras públicas, despesa, endividamento) e um partido da Oposição que fez do corte da despesa e do endividamento a sua cruzada? Se houver ‘acordo’, alguém vai a enterrar. E a menos que o PS mude radicalmente de vida (uma crença infantil), será o PSD a ocupar o caixão. E para quê? Para exibir ‘responsabilidade’? A abstenção no Orçamento chegava e sobrava. Ao comprometer-se com a política económica do governo, o PSD compromete-se também com a comprovada falência dela. Um suicídio exemplar.
Para que serve uma avaliação dos docentes? Em teoria, serve para distinguir a excelência, permitindo que os melhores, e só estes, cheguem ao topo. Esta ideia simples, que qualquer ser racional entende, não se aplica às nossas escolas. E o acordo entre o Ministério da Educação e os sindicatos, que Isabel Alçada considerou uma vitória para o ensino (sem se rir), ilustra o ponto: segundo parece, todos os professores chegarão ao topo porque todos os professores (99,5% deles, admite a ministra) são ‘excelentes’, ‘muito bons’ ou ‘bons’. De fora, ficam os ‘regulares’ e os ‘insuficientes’ (uns míseros 0,5%) que o dirigente da Fenprof, Mário Nogueira, não deverá esquecer quando se mudar definitivamente para a 5 de Outubro. Já faltou mais. E não admira que, perante este enxovalho para o governo, o melhor momento do dia tenha pertencido ao próprio dr. Nogueira, que decidiu reunir o seu secretariado numa das salas do Ministério. Bizarro? Não. Normal. A vitória dos sindicatos foi a prova de que o verdadeiro ministro da Educação não anda de saias e até usa bigode.
Chega de histeria. Sócrates não dá liberdade de voto aos seus deputados na discussão do casamento gay? Abençoado seja. No meio da ignorância larvar, ele é o único que parece compreender o sistema eleitoral que nos rege. Num país com círculos uninominais, capazes de responsabilizar cada deputado, seria legítimo esperar que, em matérias ‘fracturantes’, o tribuno votasse de acordo com os seus princípios e a sua inviolável consciência. Acontece que Portugal não vive nesse patamar de civilização; vive com um sistema partidocrático em que os deputados servem apenas para encher as ‘listas’ a concurso. Em rigor, eles não são deputados; são figurantes. E, quando chegam ao hemiciclo, é natural que votem como o chefe manda porque foi o chefe, e não o ‘povo’, quem verdadeiramente os levou para lá. Aliás, no nosso infantário parlamentar, o chefe não se limita a impor silêncios; ele pode, como se vê, conceder direito de ruído a cinco ou seis índios, para que brinquem no recreio com os outros cobóis. Quando o pai é tirano, há sempre filhos e enteados.
5 de Janeiro, Folha de S. Paulo
Os grandes livros de Roth não são mais os livros grandes, como Exit Ghost ou The Plot Against America. O melhor de Roth está hoje em pequenas narrativas despojadas de qualquer ornamento literário: peças de velhice, sobre a velhice, e por isso habitadas por toda a urgência.
The Humbling é a história banal de um homem extraordinário: o referido Simon Axler, ator com carreira longa e emérita, que perde o talento sem explicação racional. Uma noite, em cima do palco, as palavras desaparecem. Corrijo. As palavras não desaparecem. Pelo contrário, tornam-se presentes, dolorosamente difíceis e presentes, como se houvesse nesse excesso de consciência a descoberta fatal, aterradora, da profunda artificialidade de tudo. Cada frase, cada gesto, cada pausa ou silêncio - analisados obsessivamente, desencantadamente, até a paralisia. Axler é uma sombra de Axler.
A sanidade entra em regressão. O casamento definha e desaparece. O suicídio, ou a tentação do suicídio, começa o seu namoro infernal. Mas então acontece o último ato da peça existencial de Axler.
4 de Janeiro, Folha On Line
TIRANDO o Afeganistão e o Iraque (e o Paquistão), os anos do terrível George W. Bush conseguiram o milagre da normalidade em solo americano. Nenhum ataque, nenhuma bomba. Não admira que Francis Fukuyama, sempre ele, tenha publicado novo ensaio na recente edição natalícia da Newsweek para anunciar - ufanamente, novamente, estupidamente --que a história terminara mesmo.
Bastaram poucos dias para perceber que a história não terminara. Em pleno Natal, Umar Farouk Abdulmutallab entrava em avião na Holanda. Destino: Detroit, Estados Unidos. E, nas cuecas, uma bomba para explodir durante o voo.
A tentativa foi frustrada por uma mistura de inabilidade do terrorista e coragem da tripulação. Mas ficava o aviso: os americanos ignoraram os apelos do próprio pai de Umar, que na Nigéria falara com as autoridades da embaixada. O filho andava com más companhias, disse o pai; Umar tivera treino jihadista no Yemen e preparava-se para o pior. No meio da festa, ninguém ligou. Para não perturbar a festa. Fim de caso?
Longe disso. Na Dinamarca, notícias trepidantes: um intruso com ligações à Al-Qaeda entrava em casa do cartoonista Kurt Westergaard, que em 2006 enfureceu a "rua árabe" com seus desenhos de Maomé. Kurt Westergaard escapou com vida ao ataque; mas o episódio mostra bem que pende ainda sobre a liberdade de expressão, uma das mais preciosas conquistas do Ocidente, a deliciosa fatwa dos fanáticos.
Caminhamos para o fim de uma década, é verdade. Mas o mais assustador é que terminamos a dita exatamente como começámos: com a certeza de que o terrorismo islamita não concorda com as teses do sr. Fukuyama. A história continua.
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