WORK IN PROGRESS

7 de Outubro, Folha de S. Paulo

MINHA VONTADE ERA MATAR Miguel Falabella. Não, não houve plágio. Apenas uma coincidência cósmica que me arruinou um projeto televisivo. Leio na imprensa portuguesa que Falabella escreveu telenovela para a Globo onde existe família de portugas. Negócio da China, eis o título, e na novela existe Belarmino, português com bigode, dono de uma padaria, casado com Carminda, que grita o dia todo. A completar o quadro, existem os filhos Celeste e Tozé e ainda uma aldeã vinda do interior de Portugal, que veste preto da cabeça aos pés (e usa bigode).

Desconheço se Falabella, como gênio criativo que é, não incluiu outros clichês divertidos sobre os meus compatriotas. Pessoalmente, sugiro a Falabella uma empregada doméstica, a alentejana Maria das Dores, uma fadista nas horas vagas que gosta de imitar Amália Rodrigues durante a faxina. Gastronomicamente, o prato da família seria bacalhau: salada de bacalhau, purê de bacalhau e ainda sorvete de bacalhau - aqui.

 

4 de Outubro, Expresso

PASSO PELA FNAC do Chiado com o simples propósito de me abastecer. E então encontro espectáculo insólito: o meu último livro de crónicas, Avenida Paulista, foi estrategicamente colocado na prateleira dos autores brasileiros. Verdade que o livro é recolha de artigos para o brasileiro Folha de S. Paulo. Mas o autor, até prova em contrário, nasceu no Porto, tem nacionalidade portuguesa e continua a residir em Portugal. Ou não continua?

Pelos vistos, não: depois de um telefonema para o meu excelentíssimo editor das Quasi, ele comunicou-me que o caso não era isolado. Todas as FNAC enxotaram o livro para a prateleira tropical. Estou, se a memória não me atraiçoa, entre "Coelho, Paulo" e "Fonseca, Rubem". A coisa, de certa forma, começou por doer. O exílio forçado era prática corrente na Roma antiga e consta que só a morte o suplantava como castigo penal. Sou, se me permitem o exagero, uma espécie de Cícero do consulado Sócrates, condenado ao degredo pelas mãos analfabetas do pessoal da FNAC. Mas às vezes pergunto se não haverá alguma justiça poética neste acaso. Durante anos, verberei contra o "meio" literário da paróquia; confessei publicamente que os "meus" autores portugueses se contavam pelos dedos de uma mão; e cometi a imprudência de assumir perigosas afinidades com escribas brasileiros, como Paulo Francis ou Ivan Lessa, tudo gente que me fez e desfez a cabeça. Moral da história?

Muito antes da FNAC aterrar entre nós com os seus exércitos de funcionários apedeutas, eu próprio me condenei ao pior dos exílios: o exílio em terra própria. A terra retribui o gesto, exilando-me pela bibliografia. Deus não dorme - aqui.

 

3 de Outubro

Não vale a pena esconder a coisa; a coisa foi revelada pela revista Sábado desta semana: durante os últimos meses, e sucedendo aos reinados de Proença de Carvalho e Paula Teixeira da Cruz, andei pela pátria a comer como crítico gastronómico mistério. O nome de guerra foi "Olívio Palito"; as batalhas foram 14; e a primeira delas, em Bragança, foi no superlativo Solar Bragançano. Passem pela GULA, na coluna da esquerda, e releiam a experiência. Sazonalmente, prometo republicar aqui o que andei a escrever e a comer por aí. Sem pseudónimo.

 

30 de Setembro, Folha de S. Paulo

EXISTE EM FRANK LANGELLA uma discreta intensidade dramática que se converteu na segunda natureza do ator. Em filme, relembro Langella em Starting Out in the Evening, um trabalho recente de Andrew Wagner que, opinião pessoal, é o melhor retrato sobre a vida de um escritor a que assisti no cinema moderno. O filme não teve os aplausos que merecia e praticamente não existiu fora das salas da América. Mas Starting Out in the Evening oferece Langella como Leonard Schiller, um velho escritor do Upper West Side que ainda acredita na seriedade, e mesmo na "santidade", da sua arte. Em tempos de celebridades ocas, como o nosso, é quase comovente assistir às demandas de Schiller para ser fiel a uma escrita adulta, ainda que essas demandas sejam razão principal para seu bloqueio criativo. Até que certo dia surge em cena uma ninfeta com pretensões intelectuais, disposta a escrever tese sobre Schiller. Este resiste às luzes da exposição pública; mas perante as insistências da jovem, o escritor começa a ceder; vêm os primeiros encontros; e estabelece-se entre ambos, apesar da diferença etária, uma relação de cumplicidade literária que, felizmente, nunca cede ao clichê nabokoviano e sentimental - aqui.

 

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Para os interessados, aviso que a segunda edição, revista e aumentada, do Avenida Paulista, já está na loja virtual das Quasi - ou no dealer do costume. Diferenças em relação à primeira edição? Assim de cabeça, sou capaz de jurar que existem 26 crónicas novas e uma foto do autor, em cinta portátil, para fazerem tiro ao alvo. Enjoy.

 

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5 de Fevereiro de 2008, Folha On Line

- Você não acha que a corrupção, para os brasileiros, não é tão grave como seria para os europeus?

Corrupção é fruto de falta de democracia. Quanto mais avançada é uma democracia, menor o risco de corrupção. Uma imprensa independente ajuda a vigiar a classe política. Um judiciário independente também. Até a arte tem um papel no combate à corrupção. Ela oferece à sociedade ferramentas como iconoclastia, humor, visão crítica, senso estético, senso de proporção, agitação intelectual, inquietude existencial tudo isso aumenta nossa desconfiança e nossa insatisfação em relação às pessoas em geral e aos políticos em particular.

- Então o problema central talvez não seja Lula, mas o Brasil.

Exatamente. Lula - o meu Lula - é metafórico. Talvez até metonímico. Ele representa o que o país tem de pior.

 

Uma conversa com Diogo Mainardi, aqui.

 

21 de Janeiro de 2008, Folha On Line

Por que você acha que, no Brasil (em Portugal é a mesma coisa), todos os escritores em início de carreira querem logo ser um Mann ou um Dostoiévski, quando nem sequer dominam a linguagem básica da narrativa? Você acha que a hostilidade à literatura "middlebrow" é um dos fatores?

Acho que é pretensão pura, mesmo. Vontade de ser celebrado em vida e post mortem. Vontade de estar na história. O problema desses escritores não é tentarem ser Mann ou Dostoievski, é pensarem como Napoleão. Essa vaidade besta é que os impede de ter autocrítica e de ir pouco a pouco escrevendo uma obra gradual e verdadeira, que dá trabalho, muito trabalho... Monteiro Lobato tem uma imagem que adoro: diz que o estilo é como um subproduto das buscas do autor, como o cheiro que surge na fruta madura. Diz mais, diz que isso só acontece perto dos 40 anos na prosa. Pode conferir: todo grande prosador atingiu o auge depois dos 30-35. Por sinal, foi com a minha idade, 38 anos (que completarei em 28 de março), que Proust se enfiou naquele quarto de cortiça para escrever a 'Recherche'. Meu azar é não ser Proust. Minha sorte é saber que não sou. 

 

Uma conversa com Daniel Piza, aqui.

 

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FOLHA - Quando você começou a escrever crônicas para o público brasileiro, como as imaginou?

JOÃO PEREIRA COUTINHO - Pensei em leitores chorando de gratidão, matrimônios desfeitos por ciúmes bobos, cartas de amor desesperadas. Não aconteceu. Mas eu continuo a tentar, começando do zero todas as semanas. O objetivo é o mesmo: divertir, informar, enfurecer e conquistar o leitor. No fundo, eu só quero ser amado. [risos]

Entrevista para a Folha de S. Paulo sobre o livro Avenida Paulista, aqui. Para comprar o livro, aqui ou aqui. 

 

- Uma conversa radiofónica sobre Portugal e o Brasil, com Francisco José Viegas e Otavio Frias Filho, aqui [wma], aqui [mp3] ou aqui [audio real].

 

- Uma conversa com o jornalista brasileiro Bruno Garschagen, aqui.

 

- Uma conversa televisiva sobre a felicidade, com Paula Moura Pinheiro e Ana Martins, aqui

 

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Apresentações biográficas, aqui.

E-mail pessoal (mas transmissível), aqui: jpcoutinho [arroba] jpcoutinho.com

'Trabalhos Passados', na(s) próxima(s) página(s).

 

 

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