12 de Maio, Folha On Line
VIVEMOS tempos interessantes. Basta ler jornais. Ou revistas. Ou assistir a programas televisivos. A liberalização dos costumes é total. Sexo? Nunca se viu tanto como agora. E nunca se derrubaram tantos tabus como agora. Abaixo o moralismo, abaixo os moralistas. Ou, como se dizia em Paris, quarenta anos atrás, é proibido proibir. Um vitoriano que viesse diretamente do século 19 ficaria em estado de choque com a libertinagem festiva do século 21. Ou talvez não. Porque aqui reside o paradoxo do nosso tempo: nunca se viu tanto moralismo, e tanto moralista, como agora. Basta ler os mesmos jornais. Ou revistas. Ou assistir aos mesmos programas televisivos. Sempre que uma figura pública é "apanhada" com companhias pouco recomendáveis, o mesmo jornalismo que faz do século 21 uma orgia sem limites regressa imediatamente ao século 19 - aqui.
10 de Maio, Expresso
WINSTON CHURCHILL perdeu as eleições depois da Segunda Guerra. Regressaria ao poder seis anos depois. Mas, apesar da vitória, a política não tinha o mesmo sabor: em 1951, e em carta à mulher Clementine, Churchill confessava que a luta democrática em mercados, feiras e outros vexames não estavam de acordo com a sua educação, história e idade. Em Churchill, este desabafo é compreensível: o homem derrotara Hitler, tinha 77 anos de excessos e era um aristocrata. Aliás, desconfio que a vitória na guerra se explica, também, pelo seu ethos aristocrático: uma certa tenacidade que roça o heroísmo e a loucura. Difícil é compreender esta postura de enfado em pessoas que não tiveram grandes vitórias e estão longe de um passado aristocrático. É o caso de Manuela Ferreira Leite, uma mulher séria e inteligente, mas que concedeu ao último "Expresso" uma entrevista lamentável - aqui.
6 de Maio, Folha de S. Paulo
UNS TEMPOS ATRÁS, o mundo ficou em choque com a história de uma criança de 10 anos que, certo dia, a caminho da escola, foi seqüestrada por um técnico de computadores. A criança ficou na cave durante oito anos de recorrentes abusos. Agora, cereja no topo do bolo: Josef Fritzl, um eletricista que Lombroso teria enviado diretamente para a cadeia (que rosto, meu Deus, que rosto!), encerrou a própria filha na cave durante 24 anos e teve sete filhos dela. Um deles morreu e foi queimado pelo próprio pai/avô. Três viveram com ele à superfície. Três continuaram nas catacumbas e, sabe-se agora, tinham de assistir às violações da própria mãe. Em todas essas histórias, o que choca não é apenas a brutalidade dos crimes. É a dimensão espacial deles: cave, cave, cave. Se as coisas continuam, não excluo que o mercado imobiliário passe a adotar a última moda: "Vende-se moradia com quatro quartos, dois banheiros, uma sala e uma cave austríaca". As caves austríacas começam a ganhar fama internacional - aqui.
3 de Maio, Expresso
SABER que a nossa juventude não coloca a política no topo das suas prioridades implica saber quais são as prioridades. E, segundo o mesmo estudo, os jovens preferem a família, os amigos, os tempos livres e até, Deus seja louvado, a religião e o trabalho voluntário. Será isto um retrato de miséria? Não creio. Talvez seja um retrato bem mais saudável do que eu próprio suspeitava. Há trinta e quatro anos, com a democracia trémula nas ruas, a política era inevitavelmente o centro de qualquer existência. Mas a estabilidade do regime, ao retirar a política do palco, permitiu à juventude caseira perseguir outros interesses. Os seus próprios interesses. Não vejo grande drama. Aqueles que recordam, com saudade, a paixão ideológica de tempos idos, esquecem-se que esses tempos eram tudo menos saudosos - aqui.
3 de Maio, Folha de S. Paulo
O LIVRO DE FERNANDO PESSOA, Lisboa - O que o Turista Deve Ver, um inédito escrito em 1925 (em inglês), não pode ser entendido sem a História. Não pode ser entendido sem o forte sentido de "descategorização civilizacional" que não poderia deixar de entristecer um "patriota cosmopolita" como Pessoa. Será esse sentimento que o levará a exaltar Lisboa para consumo estrangeiro. A Lisboa que o leitor tem nas páginas do livro é sempre excesso: os funcionários são "competentes", "poliglotas", "afáveis"; todos os edifícios são "belos", ou "obras-primas", ou exemplares "sem paralelo na Europa". Confrontado com tais descrições, a primeira atitude é questionar se uma cidade assim tão perfeita existiu algum dia na Terra. Uma coisa é certa: para quem vive hoje em Lisboa, a cidade apresentada no livro ganha contornos fantasmagóricos - aqui.
30 de Abril, Folha de S. Paulo
JÁ TINHA pensado no assunto: o amor é diferente quando é falado por línguas diferentes. O mesmo ato, a mesma cama, os mesmos corpos, mas a narrativa é distinta, porque distinta é a língua, e os tabus, e as expressões de excitação, e as palavras sussurradas ou gritadas que habitam a boca dos amantes. "Vou gozar", "estou-me a vir": fazer amor em português (do Brasil) ou em português (de Portugal) não é apenas uma questão de sotaque, mas de imaginário, temperamento, tradição. E, no entanto, não existe um estudo sobre o fenômeno. Quando o assunto é sexo, abundam imagens, descrições, banalidades. Clichês. Mas falta uma poética do eros, capaz de revelar o que uma língua transporta para a intimidade. Como será um orgasmo em russo ou em mandarim? Como se excitam, verbalmente falando, os amantes da Islândia ou da Patagônia? E que palavrões fazem sucesso na Grécia ou no Irã? - aqui.
____________________
5 de Fevereiro de 2008, Folha On Line
- Você não acha que a corrupção, para os brasileiros, não é tão grave como seria para os europeus?
Corrupção é fruto de falta de democracia. Quanto mais avançada é uma democracia, menor o risco de corrupção. Uma imprensa independente ajuda a vigiar a classe política. Um judiciário independente também. Até a arte tem um papel no combate à corrupção. Ela oferece à sociedade ferramentas como iconoclastia, humor, visão crítica, senso estético, senso de proporção, agitação intelectual, inquietude existencial tudo isso aumenta nossa desconfiança e nossa insatisfação em relação às pessoas em geral e aos políticos em particular.
- Então o problema central talvez não seja Lula, mas o Brasil.
Exatamente. Lula - o meu Lula - é metafórico. Talvez até metonímico. Ele representa o que o país tem de pior.
Uma conversa com Diogo Mainardi, aqui.
21 de Janeiro de 2008, Folha On Line
Por que você acha que, no Brasil (em Portugal é a mesma coisa), todos os escritores em início de carreira querem logo ser um Mann ou um Dostoiévski, quando nem sequer dominam a linguagem básica da narrativa? Você acha que a hostilidade à literatura "middlebrow" é um dos fatores?
Acho que é pretensão pura, mesmo. Vontade de ser celebrado em vida e post mortem. Vontade de estar na história. O problema desses escritores não é tentarem ser Mann ou Dostoievski, é pensarem como Napoleão. Essa vaidade besta é que os impede de ter autocrítica e de ir pouco a pouco escrevendo uma obra gradual e verdadeira, que dá trabalho, muito trabalho... Monteiro Lobato tem uma imagem que adoro: diz que o estilo é como um subproduto das buscas do autor, como o cheiro que surge na fruta madura. Diz mais, diz que isso só acontece perto dos 40 anos na prosa. Pode conferir: todo grande prosador atingiu o auge depois dos 30-35. Por sinal, foi com a minha idade, 38 anos (que completarei em 28 de março), que Proust se enfiou naquele quarto de cortiça para escrever a 'Recherche'. Meu azar é não ser Proust. Minha sorte é saber que não sou.
Uma conversa com Daniel Piza, aqui.