NÃO EXISTEM leitores como os meus. Peço desculpa. Os meus leitores são radicalismo puro e habitam os extremos com uma força inaudita. Gostam muito ou gostam nada. E gostam muito de mim ou gostam nada de mim. Justo. Bons tempos, esses, em que um grupelho anónimo tinha por hábito enviar-me generosas quantidades de vírus, com o único propósito de calar a máquina e, claro, calar o monstro. Sempre respondi a essa gente com uma paciência de Job. E, não raras vezes, aconselhei tratamento psiquiátrico a alguns. Três deles mudaram de sexo. Consta que são hoje deputados. Nunca mais me bateram à porta. Caso encerrado.
SOBRAM os outros. Os que gostam muito. E os que gostam muito mas não aceitam tudo. Os primeiros fazem bem ao ego. Os segundos ainda fazem melhor. Corrigem. Contestam. Aconselham leitura, mais leitura, mais prudência. Importam-se, marca visível de que a civilização não caminha para o cadafalso. Pena que não os ouça. Tenho até correspondência semanal que dura há anos. E cheguei a conhecer pessoalmente dois ou três. Peço desculpa: duas ou três. Impressão delas: devia ser mais alto. E mais magro. E mais bonito. E mais inteligente. E mais outro. Nem sequer devia ser eu. Quem és tu, traste? Impressão minha: as moçoilas são invariavelmente melhores do que na pobre imaginação do plumitivo. Um cruzamento possível entre Juliette Binoche, Monica Bellucci e os miolos da Martha Nussbaum. O Miguel Esteves Cardoso falava em tempos da nova geração Nestum com Mel. Nem mais, Miguel. O que não deixa de ser um milagre para um pessimista como eu. Já pensei casar com uma. Ela também. Mas o milionário João Pereira Coutinho continua a alimentar confusões a despropósito.
DE RESTO, escuso de acrescentar que, na aventura das letras, prefiro a leitura à escrita. Qualquer um é capaz de escrever. Até Saramago. Mas a leitura é outra história. Exige aprendizagem e experiência. Não falo da leitura superficial que qualquer criatura letrada executa sem esforço. Falo da outra. Leitura como criação. Harold Bloom sabia do que falava: entrar em diálogo com o autor é habitar uma casa que não nos pertence. Mas que vamos reclamando como nossa. Primeiro, o quarto. Depois, a sala. Até ao dia em que nos instalamos para sempre e desatamos a mudar o sítio das pratas e a dar ordens à criada. Ter quem me leia é uma sorte. Ter quem mude o sítio das pratas, um verdadeiro milagre.
MAS não espalhem.
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In Vida Independente: 1998 - 2003 (O Independente, 2004)