IMRE KÉRTESZ
28 Fevereiro 2003 / O Independente

SÓ UMA VIDA EXAMINADA vale a pena ser vivida, como afirmava Sócrates pela voz de Platão? Esta ideia percorre a história intelectual do Ocidente e está longe de ser propriedade privada dos Gregos. Encontra-se igualmente nas utopias renascentistas e, claro, no movimento iluminista, de traço continental, que estabeleceu uma ligação imediata entre virtude e sabedoria, como se uma implicasse a outra. Sempre alimentei as maiores dúvidas. Não nego que o progresso intelectual do Ocidente se foi fazendo por teste e erro. Mas nem todo o conhecimento é necessariamente benéfico. Pelo contrário: há certas verdades que, por mais nobres que sejam, devem habitar apenas a escuridão. Por vezes, um módico de ignorância é o condimento necessário para uma vida suportável. Um módico de ignorância - ou, como mostra Imre Kertész, um módico de negação essencial.

IMRE KERTÉSZ, judeu e húngaro, ganhou o Nobel da Literatura em 2002 e o mundo abriu a boca de espanto. A obra do senhor também não ajuda: apenas uma dúzia de títulos no original, duas ou três versões em inglês ou francês e, escusado será dizer, nenhuma em português. Mas Kertész, apesar de não possuir a beleza poética de Levi, é um autor que merece atenção. Refiro-me, particularmente, a Fateless, o primeiro romance. Fateless é o relato pessoal de um adolescente - o próprio autor - que, em 1944, é despojado da vida normal e atirado, primeiro para Auschwitz, posteriormente para Buchenwald. Aquilo que impressiona na prosa de Kertész é o seu radical anti-dramatismo. As frases são curtas. A ironia não abunda. E, mais impressionante ainda, a total ausência de doutrina. O que perturba na personagem de Kertész é a forma como ela procura «normalizar» o Holocausto, encarando a natureza do horror como uma etapa necessária para a prossecussão necessária da vida. Nenhuma digressão sobre a presença (ou ausência) de Deus. Nenhuma hipérbole sobre a brutalidade dos campos. O rapaz de Kertész entra em Auschwitz e teme apenas a reacção da madrasta que o não vai ter à hora do jantar. Os dias passam. Dias repetitivos, com a personagem a integrar e a integrar-se na repetitiva rotina dos condenados. E quando a libertação chega, o regresso a uma Budapeste que deplora o seu sofrimento e a uma família que debita clichés sobre aquilo que não sabe. A George, alter-ego do autor, resta apenas a imperiosa necessidade de continuar. Em Kertész, a catarse não se faz por expressão. Mas por repressão. Porque é no silêncio do que não é dito que reside a possibilidade de libertação.

 

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In Vida Independente: 1998 - 2003 (O Independente, 2004)

 

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