CRÍTICO MISTÉRIO
Março - Setembro 2008 / Sábado

CAFEÍNA

Porto

Ainda na década de 90, houve um hábito entre a restauração nacional de substituir o conteúdo pela forma. A ideia, então cultivada, era abrir espaços «simpáticos», «modernos» ou «envolventes», independentemente da qualidade do que lá se servia. A realidade fazia lembrar uma frase de um conhecido jornalista brasileiro que, depois de assistir ao último filme de um realizador incensado pela crítica, dizia: «O filme é uma merda, mas o director é genial.» Com os nossos restaurantes era a mesma coisa. A comida era uma merda, mas o espaço era genial.


O Cafeína, moradia antiga na Foz antiga do Porto, sofria deste pecado. O espaço era genial. A comida... É por isso que o meu regresso ao Cafeína foi duplamente positivo. Primeiro, porque o espaço e a comida estão, finalmente, ao mesmo nível. E, segundo, porque havia a memória do antigo Cafeína, o que permite avaliar a distância entre o presente e o passado. Uma só coisa continua igualmente irritante: a imposição de música ambiente sobre os comensais.


O cardápio do Cafeína é relativamente pequeno mas, em contrapartida, cada prato foi pensado com a atenção e o respeito que a comida merece. Isso ficou claro nas entradas da casa: o chévre gratinado em massa folhada ou as gambas Kadaïf com creme de alface, vinagrete e maracujá são exemplos de talento e equilíbrio assaz raros na cozinha portuense ou nacional.


Depois, é possível experimentar os pratos «tradicionais» da casa e medir, de forma ainda mais rigorosa, a distância entre o passado e o presente: o Tornedó Wellington está irreconhecível e o Magret de pato, idem aspas. O bife tártaro, enquanto Bruxelas não se lembra de o criminalizar, está ao nível do bife tártaro que se come no lisboeta Pabe (o que, para os entendidos, é dizer tudo).

Para fechar, a doçaria caseira não atraiçoa esta sinfonia em crescendo: o presente crítico atacou a tarte Tatin quente com natas batidas e disse adeus à dieta.

Uma última coisa: na restauração nacional, não era apenas a distância entre o espaço e a cozinha que frustrava o gourmet; era também o pessoal tarefeiro que era incapaz de aconselhar ou explicar um prato. Os empregados do Cafeína sabem do que falam; explicam cada prato com conhecimento de causa; aconselham vinhos e combinações; e, além disso, as meninas do espaço, a começar pela belíssima mestre-de-cerimónias que nos recebe à chegada, são a prova viva de que Deus é mulher. Mas isso já são outras histórias...

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O MELHOR: O espaço mais nobre do Cafeína é reservado a fumadores.

O PIOR: Persiste ainda uma excessiva proximidade entre as mesas, a que se junta a imposição da música ambiente.


Serviço: 18 valores
Vinhos: 16 valores
Ambiente: 18 valores
Comida: 18 valores


Entradas

Chévre gratinado em Massa Folhada (7 euros)
Gambas Kadaïf com creme de alface, vinagrete e maracujá (8 euros)

Pratos

Tornedó Wellington (17,5 euros)
Magret de pato com molho agridoce e toranja (17 euros)
Bife tártaro (17,5 euros)

Sobremesas

Tarte Tatin quente com natas batidas (6 euros)

 

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SOLAR BRAGANÇANO

Bragança

Gentes de Bragança, por favor, não se queixem dos dramas da interioridade. O poder pode estar em Lisboa. O emprego concentra-se maioritariamente no litoral. E Bragança by night, ao contrário do que dizem as famosas “mães”, não é propriamente Times Square. Mas eu trocava tudo – poder, trabalho, Times Square – por almoços e jantares no Solar Bragançano.

O Solar, como o nome indica, é construção senhorial bem no centro da cidade, em plena Praça da Sé. E os manjares são produto do talento discreto de Ana Maria Rodrigues, que há 21 anos prova e comprova que é possível recolher o melhor da cozinha tradicional transmontana, reenviando-a directamente para o presente. Sou cliente fiel, o que dificulta uma crítica gastronómica. Desde logo porque eu não escolho nada: sento-me, sou servido por Sir Desidério, marido de Ana Maria e o maior cavalheiro para lá do Marão, e pago. Não abro a boca, excepto para comer. Mas comer o quê?

A cozinha do Solar começa por empanturrar o comensal com o fumeiro tradicional: presunto, alheira, chouriço. A sopa de castanhas é, por si só, um acontecimento. Comemos, pensamos em pedir a sobremesa, mas depois avisam-nos que o prato principal ainda está para chegar. E ele chega. É possível repetir a alheira de caça (designada por Santo Huberto), mas aconselho sem reservas o arroz de lebre (confeccionado como as avós de Bragança o faziam, em tempos pré-ASAE) e o faisão com castanhas. E o coelho bravo à Monsenhor. E o javali com maçã frita. E a perdiz com uvas. E, já agora, o número do INEM. Como grand finale, nada de invenções: o bolo de castanhas envia-nos directamente para o paraíso. Tudo embalado pela música de fundo do Solar, rigorosamente Mozart ou Haydn.

E o preço? O preço, por comparação com as espeluncas sofisticadas de Lisboa ou do Porto, é um roubo. Mas um roubo que o cliente faz ao restaurante, e não ao contrário. O Solar Bragançano, depois de alimentar os comedores, devia enfiá-los directamente na cadeia.

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O MELHOR: Estar aberto de terça a domingo, e não fecharem no Verão.

O PIOR: Fechar à segunda-feira, excepto no Verão.

Serviço: 18 valores
Vinhos: 17 valores
Ambiente: 18 valores
Comida: 19 valores

Pratos

Faisão com castanhas (14 euros)
Javali estufado com repolho e maçã frita (14 euros)
Perdiz com uvas (19.50 euros)

Sobremesas

Bolo de castanhas e noz (3.50 euros)
Sopa de cerejas (3.50 euros, mas só no Verão)

 

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SARA BARRACOA

Famalicão

 

Uma tasca é uma tasca. Não se esqueçam disso. Nas críticas anteriores, o vosso Olívio Palito visitou restaurantes, não tascas. Mas quando se entra no mundo da tascaria, não é possível nem justo aplicar os mesmos critérios que foram usados em restaurantes. Uma tasca cria as suas próprias regras. As suas próprias exigências. As suas próprias expectativas. Serviço? Num restaurante, quer-se informado; na tasca, quer-se despachado. Vinho? No restaurante, querem-se vários; na tasca, quer-se encorpado. Ambiente? No restaurante, quer-se sofisticado; na tasca, quer-se familiar e, já agora, asseado. E quando a comida chega à mesa, ninguém espera por sofisticação ou equilíbrio; exige-se, apenas, fartura e genuinidade.

É neste sentido que o Sara Barracoa, em Famalicão, pode ser nomeado para o Óscar da Melhor Tasca Nacional. E se o descobri, foi por obra e graça do escritor Jorge Reis-Sá, um filho da terra, que num dia soalheiro me levou à casa onde Camilo Castelo Branco costumava almoçar, sempre que descia de Seide para vir à vila. Sara Barracoa era a mulher de António Ferrador. E enquanto ele calçava as mulas no andar de baixo, a mulher enchia a mula dos clientes de cima.

E continua a enchê-las, por obra e graça dos herdeiros. Para começar, há sopa do dia e papas de sarrabulho. Experimentei as papas, que só por si justificam o almoço. Mas depois o repasto continuou com os rojões à moda do Minho, reduzidos no Sara Barracoa aos seus elementos mais básicos: carne de porco e enchidos, com batata a acompanhar. Tudo no ponto, a começar pela gordura, que confere ao prato um aspecto e sabor muito longe das mistelas habituais onde os produtos são servidos a pingar.

Depois, ataquei as pataniscas de bacalhau com arroz. Comem-se com agrado, embora fosse preferível um arroz malandrinho como acompanhamento e não o arroz seco que frusta um pouco a gulodice do comensal. Fechar o almoço com o bolo caseiro é opção sensata. O vinho é da casa: um tinto regional.
Só mais uma coisa: o Sara, apesar de tasca, não avia os clientes com os inomináveis guardanapos de papel. Os beiços são senhorialmente limpos a seculares guardanapos de pano, e digo “seculares” porque é possível encontrar neles um ou outro buraco ocasional. Pessoalmente, é o supremo charme.

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O MELHOR: Apesar de tasca, serve com guardanapos de pano.

O PIOR: Enche com facilidade ao almoço, tomado de assalto por gente de todas as classes.


Serviço: (0/20) 16
Vinhos: (0/20) 14
Ambiente: (0/20) 17
Comida: (0/20) 17


Entradas

Papas de sarrabulho (2 euros)
Sopa de legumes (1,5 euros)

Pratos

Rojões à moda do Minho (13,50 euros)
Pataniscas com arroz (9 euros)

 

 

 

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